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A Viagem de Chihiro vale a pena? Review completo (2001)

· 21 de setembro de 2026

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🚨 Aviso de spoiler: este review comenta a trama com detalhes, incluindo cenas e reviravoltas. Se você ainda não assistiu e quer chegar sem saber de nada, melhor ver primeiro e voltar depois.

Vale, e é provavelmente a melhor porta de entrada que existe para o cinema de animação japonês. 🐉 A Viagem de Chihiro começa com uma menina de dez anos emburrada no banco de trás do carro, de mudança para uma cidade que ela não escolheu, reclamando das flores de despedida que ganhou da escola. Vinte minutos depois, os pais dela viraram porcos e ela está trabalhando numa casa de banhos para espíritos.

Hayao Miyazaki não explica quase nada disso. Não tem narrador dizendo as regras do mundo, não tem personagem que para para expor a mitologia, não tem mapa. O filme confia que você vai entender pelo comportamento das criaturas, e essa confiança é o motivo de ele funcionar tão bem para criança e para adulto ao mesmo tempo.

São 2h05 sem vilão de verdade, sem batalha final e sem moral escrita na tela. Neste review, a gente conta por que isso é uma qualidade, o que pode incomodar quem está acostumado com animação ocidental, e por onde começar. Bora?

Ficha rápida: ★ 8,5 no TMDB · Nossa nota 8,8 · Animação, Fantasia e Família · 2001 · 2h05 · Direção e roteiro de Hayao Miyazaki · Estúdio Ghibli · Disponível na Netflix

Do que fala A Viagem de Chihiro

Chihiro está se mudando com os pais quando o carro erra o caminho e para diante de um túnel. Do outro lado tem o que parece um parque abandonado, com barracas de comida quentes e ninguém por perto. Os pais comem. Chihiro não come. À noite, o lugar acende, criaturas começam a chegar de barco e os pais dela estão transformados em dois porcos numa baia.

Um garoto chamado Haku aparece e diz o essencial: para não desaparecer, ela precisa de trabalho. É assim que Chihiro entra na casa de banhos comandada por Yubaba, uma bruxa de cabeça enorme que administra um estabelecimento para espíritos cansados. Yubaba dá emprego a quem pede, mas cobra o nome em troca. Chihiro vira Sen, e o filme inteiro passa a girar em torno de lembrar quem ela era.

O que acontece a partir daí é menos aventura e mais rotina. Sen esfrega banheira, carrega balde, aprende a falar com quem manda, apanha da chefe de turno e encara o cliente pior da casa, um espírito podre que chega cobrindo tudo de lodo. Ela também toma conta do Sem Rosto, uma criatura silenciosa que oferece ouro a todo mundo e engorda de tudo que engole.

Na segunda metade, a história abre para fora da casa de banhos, com uma viagem de trem sobre a água que é um dos trechos mais bonitos que a animação já produziu. Não tem confronto final. O que resolve o filme é Chihiro se lembrar de uma coisa que aconteceu quando ela era muito pequena, e usar essa memória.

O que funciona

O desenho de mundo é de outra categoria. A casa de banhos tem economia própria, hierarquia de funcionários, horário de expediente, fofoca de corredor e clientes chatos. Miyazaki mostra os elevadores, a caldeira no subsolo, a cozinha, o alojamento. Nada disso é explicado, tudo é encenado, e por isso o lugar parece existir antes e depois da história.

Chihiro é uma das melhores protagonistas infantis do cinema porque ela começa insuportável. Reclama, tem medo, chora, faz corpo mole. A mudança dela não vem de coragem súbita nem de poder secreto: vem de aprender a trabalhar, de tratar bem quem os outros desprezam e de manter a palavra. É uma ideia de crescimento bem mais interessante do que a fórmula do herói escolhido.

O Sem Rosto merece parágrafo próprio. Ele é uma criatura vazia que assume o que recebe: quando a casa de banhos o trata pela ganância, ele vira ganância e devora funcionário. Quando Chihiro recusa o ouro que ele oferece, ele não sabe o que fazer. É a coisa mais próxima de vilão que o filme tem, e mesmo assim termina sentado quietinho tricotando. Poucos filmes conseguem dizer tanto sobre desejo sem uma linha de diálogo direta.

A animação, feita majoritariamente à mão, envelheceu melhor do que praticamente tudo que foi produzido em computador na mesma época. Tem detalhe em coisas que ninguém pediria: a maneira como o mingau cai da colher, a poeira que sai quando Chihiro sacode um pano, o movimento de água no trecho do trem. Esse cuidado é o que dá peso físico ao mundo mágico.

E tem a trilha de Joe Hisaishi, que faz um trabalho de contenção raro. O tema principal, One Summer’s Day, aparece pouco e sempre no ponto certo. Boa parte do filme corre em silêncio ou só com som ambiente, o que é uma escolha corajosa para uma animação destinada também a crianças.

Cena da animação A Viagem de Chihiro, de Hayao Miyazaki

O que pesa contra

O filme não explica nada, e para uma parte do público isso é defeito, não qualidade. Quem são os espíritos, por que Yubaba fica com os nomes, o que exatamente Haku é, de onde vem a irmã dela: várias dessas perguntas ficam sem resposta fechada. Se você é do tipo que quer regra clara de magia, vai terminar com uma lista de dúvidas.

O ritmo também é japonês, no sentido de que ele para. Tem cena longa de Chihiro sentada no trem sem falar nada, tem sequência inteira de tarefa doméstica. Quem está acostumado com o compasso de animação americana, que corta a cada dez segundos e coloca piada em toda pausa, vai achar arrastado no primeiro terço.

A segunda metade é mais dispersa do que a primeira. Depois que o Sem Rosto é resolvido, o filme abre várias frentes ao mesmo tempo: a irmã de Yubaba, a origem de Haku, o bebê transformado, a prova final. Nenhuma delas tem o foco que a casa de banhos tinha, e o desfecho chega rápido demais, resolvido por uma lembrança que o espectador não tinha como antecipar.

Tem ainda uma barreira prática: a dublagem em português é competente, mas boa parte da graça está nas vozes originais e nos nomes japoneses, que carregam sentido. E algumas criaturas assustam mesmo. O espírito podre, a transformação dos pais em porcos e o Sem Rosto engolindo funcionário são cenas fortes para crianças pequenas, mesmo o filme sendo classificado como livre.

O que dizem por aí

A recepção é das mais unânimes que existem. No Rotten Tomatoes, o filme aparece com 97% de aprovação em 185 resenhas, e no Metacritic marca 96 pontos em 41 críticas, faixa de aclamação universal. É recorrente em listas de melhores filmes do século, e não só de animação.

Nos prêmios, venceu o Oscar de melhor animação em 2003 e segue sendo a única animação desenhada à mão e falada em outra língua que não o inglês a levar essa estatueta. Antes disso, dividiu o Urso de Ouro no Festival de Berlim de 2002 com Domingo Sangrento, e é a única animação a ganhar o prêmio principal de Berlim.

No Japão, foi fenômeno de bilheteria: passou de 230 milhões de dólares só no mercado japonês e destronou Titanic como maior bilheteria da história do país, marca que segurou por quase duas décadas. Entre o público brasileiro, o padrão que mais se repete nas discussões é o de quem viu criança sem entender direito, reviu adulto e passou a considerar o filme favorito. A crítica que mais aparece é sempre a mesma: o final resolve rápido.

Para quem é, e para quem não é

É para quem quer entrar no Studio Ghibli e não sabe por onde começar. É também para quem gosta de fantasia construída com regra interna e não com exposição, e para quem tem paciência com filme que respira. Funciona muito bem para assistir junto com criança a partir de uns oito anos, com adulto por perto para as cenas mais assustadoras.

Não é para quem quer aventura de ritmo constante, nem para quem se irrita com pergunta sem resposta. Também não é a melhor escolha para criança muito pequena: a transformação dos pais e o espírito da putrefação assustam de verdade, e não tem aviso antes.

Veredito final

Nossa nota é 8,8, acima do 8,5 do TMDB. A Viagem de Chihiro é o raro caso de filme unanimemente amado que continua estranho. Ele não tem vilão a ser derrotado, não tem lição escrita na tela e resolve o clímax com uma lembrança de infância. Nada disso deveria funcionar para o público infantil, e funciona há vinte e cinco anos.

Ela não vira 10 porque a segunda metade se espalha e o desfecho chega antes de todas as pontas fecharem. Mas é uma das cinco ou seis animações essenciais já feitas, e a experiência de assistir pela primeira vez sem saber nada é difícil de igualar. Está na Netflix, dublado e legendado. Se puder, veja legendado. Corre lá. Ver ficha e onde assistir →

Perguntas rápidas

A Viagem de Chihiro é indicado para crianças? É livre, mas tem cenas pesadas: os pais viram porcos, um espírito coberto de lodo aparece por vários minutos e o Sem Rosto devora personagens. Funciona melhor a partir de uns oito anos, com adulto junto.

Precisa ter visto outros filmes do Studio Ghibli antes? Não. Cada filme do estúdio é uma história independente. Este é justamente o mais recomendado para começar, porque tem a mistura mais equilibrada de fantasia, humor e emoção.

Melhor assistir dublado ou legendado? A dublagem em português é boa e resolve para quem vai assistir com criança pequena. Ainda assim, o original em japonês guarda camadas de sentido nos nomes e no jeito de falar de cada criatura que a dublagem não tem como reproduzir.

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